quarta-feira, 24 de maio de 2017

JACU-DE-ESTALO: UM PAPA-LÉGUAS BRASILEIRO


Quase todo mundo algum dia assistiu ao desenho animado do “Papa-léguas”, sempre as voltas com um coiote que tenta capturá-lo sem sucesso, baseado em animais reais nativos dos desertos do sudoeste americano. Em um deserto cheio de rodovias, o faminto Wylie Coiote sempre tenta capturar o Papa-Léguas, encomendando produtos ACME, uma empresa que fabrica de tudo. O Papa-Léguas passa todos os episódios ludibriando as tentativas do coiote em capturá-lo. Contando com astúcia, velocidade ou uma sorte absurda, o Papa-Léguas sempre escapa ileso de todas as artimanhas altamente criativas de seu arqui-inimigo, porque este sempre acaba pego por sua própria armadilha. Um fato curioso é que apesar do perseguidor nunca conseguir devorar seu oponente, em alguns episódios de Tom e Jerry, Ligeirinho, Frajola e Piu-Piu, eles acabam de uma maneira ou outra obtendo alguma vitória sobre seus rivais, entretanto com o Papa-Léguas o coiote jamais terminou um episódio triunfando de alguma forma. Curioso também é que os desenhos não têm diálogos, excluindo pelo "bip-bip" do Papa-Léguas e ocasionais placas escritas usadas pelo coiote para se comunicar com o público. 



Papa-Léguas e Wylie-Coiote

O “Papa-léguas” ou “Roadrunner” (Geococcyx californianus) é uma ave da família Cuculidae, que habita as áreas desérticas do sudoeste dos Estados Unidos e norte do México. É a ave símbolo do Novo México. Mede aproximadamente 56 cm de comprimento, com envergadura de 49 cm. É uma ave que voa pouco, preferindo correr. Apresenta uma faixa branca na região pós-ocular, uma pequena crista no alto da cabeça e uma longa cauda. Os sexos são semelhantes, sendo o macho um pouco maior. Alimentam-se principalmente de insetos, pequenos répteis, aranhas, escorpiões, pequenos pássaros e roedores. Pode atingir a velocidade de até 30 km/h. 


O Papa-Léguas (Geococcyx californianus)

Mas chega de Papa-Léguas e vamos ao Jacu-de-Estalo.

A família Cuculidae engloba aves como o papa-léguas, o cuco-europeu, o anu branco, o anu preto, o anu coroca, o peixe frito, entre outros, e também o Jacu-de-estalo (Neomorphus geoffroyi) de hábitos florestais e que busca alimento principalmente no solo, onde se desloca muito rapidamente.

O nome Jacu-de-Estalo vem dos estalos emitidos pela ave que lembram o som das matracas de madeira ou mesmo o estalar dos dentes do porco-do-mato. A sua vocalização se limita a roucos grunhidos, baixos, monossilábicos, que lembra os gemidos do mutum, ou a vocalização das pombas.

Para quem não conhece estes sons ouça em




O Jacu-de-estalo (Neomorphus geoffroyi)

Esta é a primeira foto que conheço do jacu-de-estalo. Foi publicado em um boletim do Museu de Biologia Mello Leitão, em 1976, pelo professor Augusto Ruschi (1915-1986), na Reserva Biológica de Sooretama (ES).

Para o gênero Neomorphus são reconhecidas quatro espécies: Neomorphus geoffroyi, N. squamiger, N. rufipennis e N. pucheranii. Para N. geoffroyi são aceitas seis subespécies.

Em 2012 foi registrada a presença de Neomorphus geoffroyi no bioma Caatinga, no município de Sento Sé (BA).

Veja mais detalhes na página do CBRO – Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos: https://www.facebook.com/pg/CBRObr/posts/?ref=page_internal

A subespécie aqui do sudeste é o Neomorphus geoffroyi dulcis, que ocorre na confluência dos estados de Espirito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tem sido visto com maior frequência na Reserva Biológica de Sooretama (ES) e no Parque Estadual do Rio Doce (MG). Aqui no RJ, o ornitólogo Fernando Pacheco relatou a vocalização da ave no Parque Estadual do Desengano (o parque abrange os municípios de Santa Maria Madalena, Campos dos Goytacazes e São Fidélis).

Quando buscam alimentos os jacus-de-estalo correm pelo solo e saltam atrás dos insetos que levantam voo apanhando-os no ar. Capturam rapidamente aqueles que se esgueiram no meio da folharada. Grimpam pelos troncos em busca de pequenos lagartos e insetos. Esfacelam as presas batendo-as contra os troncos ou solo. As presas menores são esmagadas e engolidas inteiras. Durante as perseguições correm de forma desembaraçada pelo cipoal da floresta. Acompanham formigas-de-correição e formigas-de-fogo, aproveitando as presas que as formigas espantam. 

Vejam o vídeo em 

https://www.youtube.com/watch?v=BYIMbbK8RuE (jacu-de-estalo, Canopy Family, Youtube).

Até 1942 quando o Dr Helmut Sick (1910-1991) observou um casal do jacu-de-estalo acompanhado de um filhote, não se tinha certeza se essa espécie incubava seus ovos ou eram parasitas de ninhos como outras espécies de cuculídeos. O cuco europeu (Cuculus canorus) é um exemplo clássico, e entre nós o vira-bosta (Molothrus bonariensis) coloca seus ovos nos ninhos do tico-tico, do canário-da-terra, entre outras espécies, e vai embora deixando que os escolhidos incubem os ovos e criem os filhotes. Em alguns lugares do nordeste de Goiás chamam o vira-bosta de Maria-vadia. 

A Maria-vadia está tão bem adaptada ao parasitismo de ninho, que é capaz de alterar o formato e a coloração dos ovos em função do hospedeiro escolhido. Mas isso é papo para outra ocasião.

Um ninho de jacu-de-estalo localizado em um tributário do rio Aripuanã no norte de Mato Grosso, estava construido em uma forquilha de um arbusto a 2,5 metros de altura. Era construído de grandes galhos e tinha uma câmara plana. O fundo estava forrado com folhagem seca coberta com folhas verdes. O diâmetro do ninho era de 25 cm e o diâmetro da câmara de 12 cm. Durante a incubação o fundo do ninho estava sempre coberto com folhas frescas. A postura observada neste ninho era de um único ovo de coloração branco amarelado sem manchas.

A espécie Neomorphus geoffroyi é considerada vulnerável no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção, da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza). A subespécie não consta da lista da IUCN. 

No Brasil Neomorphus geoffroyi dulcis é considerada ameçada.

Segundo a IUCN o tamanho da população global não é conhecido, porém a espécie é considerada rara. Suspeita-se que a espécie perderá cerca de 25% de habitat apropriado na sua área de distribuição dentro de três gerações (+/- 13 anos) com base no modelo de desflorestamento na Amazônia. Entretanto a espécie é altamente vulnerável a fragmentação florestal e é possível que decline cerca de 50% dentro das três gerações. Depreende-se que a principal ameaça para essa espécie é o desflorestamento acelerado, com a abertura de clareiras para criação de gado, produção agrícola ou simples exploração madeireira. O jacu-de-estalo é fortemente suscetível a degradação e fragmentação florestal devido a sua dependência de florestas primárias, além de ser vulnerável à caça e dependente também de mamíferos que são alvos de caçadores, como porcos-do-mato e primatas. A espécie não faz migrações, sendo naturalmente rara.

Para melhorar a situação e a sobrevivência da espécie são necessários estudos sobre seus requerimentos ecológicos e a detecção de potenciais habitats apropriados, com a expansão da rede de áreas protegidas. 

BIP BIP!


Créditos e consultas


https://www.youtube.com/watch?v=PPdklH6t7dI (roadrunner, Robert DuHamel, Youtube)


https://www.youtube.com/watch?v=3hwJsaTr3EY (jacu-de-estalo ReBio Sooretama, Guilherme Cavicchioli, Youtube)




2 comentários:

  1. Realmente é uma ave fenomenal que merece atenção especial como tantas outras que estão ameaçadas. O Brasil precisa estimular a formação de novos conservacionistas e ampliar espaços para os que já estão no caminho. A saúde individual deve evoluir para a saúde coletiva da população. A saúde coletiva deve evoluir para a saúde da comunidade. A saúde da comunidade deve evoluir para a saúde ecossistêmica. Então chegaremos à saúde única. nossa única chance de sobrevivência integral neste planeta. O tempo será o supremo juiz, mesmo que não reste por aqui nenhum Homo sapiens para contar a historia.

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    1. Olá Robeerto
      Saúde e Paz.
      Realmente fala-se muito em políticas públicas, mas os atos efetivos são bastante irrisórios em face ao tamanho do problema. Não vejo o Homo sapiens neste planeta por muito mais tempo não. Gaia vai continuar viajando, sabe-se lá até quando, mas com certeza sem seu passageiro maligno.
      Abração

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