quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O COM-COM DA RESTINGA


OU
 FORMIGUEIRO-DO-LITORAL
Môsar Lemos

Mais conhecido como Formigueiro-do-litoral, o Formicivora littoralis é uma figurinha rara. Também pudera. Restrito, melhor dizendo endêmico, ao ecossistema mais devastado em nosso país, carrega o peso de ser a única ave endêmica da restinga no Brasil. Pior ainda só ocorre no RJ e na região dos lagos.
É um passarinho da família Thamnophilidae que ocorre em uma faixa litorânea que abrange os municípios de Araruama, Saquarema, Iguaba Grande, Arraial do Cabo, São Pedro D’aldeia e Cabo Frio. Mora bem e resiste bravamente a especulação imobiliária.
Quando foi proposto por Luiz Pedreira Gonzaga e José Fernando Pacheco em 1990, a caracterização do táxon, o passarinho seria na verdade uma subespécie de Formicivora serrana, batizado como Formicivora serrana littoralis



A fêmea 


O macho

Em 1992 outro pesquisador,  Collar e seus colaboradores estudaram o passarinho e chegaram a conclusão que ele era uma espécie separada, e ele passou a ser o nosso conhecido Formicivora littoralis.



Restinga de Tucuns, em Búzios (RJ) 


Restinga de Tucuns, em Búzios (RJ) 


Parte alta adjacente à restinga. Aqui é na praia de José Gonçalves, limítrofe à Praia de Tucuns.

Para entender melhor a situação: Formicivora serrana foi descrita por Hellmayr em 1929 Ele coletou exemplares em Minas Gerais. Gonzaga e Pacheco descreveram as subespécies Formicivora serrana interposita com exemplares coletados em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, e Formicivora serrana littoralis com espécimes coletados somente no Rio de Janeiro. Segundo eles, Formicivora serrana interposita foi considerada subespécie de Formicivora serrana graças à morfologia e área geográfica intermediária em relação a Formicivora  serrana serrana Formicivora serrana littoralis

O mapa abaixo elaborado por Gonzaga e Pacheco, por ocasião da publicação de suas descobertas, ajuda a entender o porque da separação. É como se houvesse uma gradação entre serra, encosta e praia.




Dá para perceber a divisão: serrana em MG e ES; interposita em MG e RJ e littoralis no RJ. Porém a história ainda não acaba aqui, pois em 1992 Collar e seus colaboradores entenderam que Formicivora serrana littoralis era uma espécie distinta e o grupo ficou dividido, com 2 subespécies de Formicivora serrana (serrana e interposita) Formicivora littoralis como espécie isolada.

Ainda tem mais. 

Em 2011 dois outros pesquisadores Daniel Firme e Marcos Raposo, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, analisaram 146 espécimes (material taxidermizado pertencente a diversas coleções ornitológicas) e concluiram que Formicivora littoralis não é uma espécie válida. O que eles fizeram? Com as peles eles analisaram a cor da plumagem, utilizando um padrão aceito internacionalmente para descrição das cores. Além disso o padrão da distribuição das cores pelo corpo da ave e as características morfológicas externas, como o comprimento das asas e da cauda, a parte do culmen que não é coberta de penas (geralmente dos orifícios nasais até a ponta do bico, a largura do bico na região dos orifícios nasais e a altura do bico na base. Consideraram também a ossificação do crânio para separar adultos de jovens. Assim como nas crianças é possível reconhecer nas aves jovens as suturas que separam os ossos da cabeça. Outras dados como origem, vocalização também foram considerados no estudo. De posse de todas essas informações fizeram uma análise estatística, utilizando a análise de variância e admitindo um erro de no máximo 5%. Na verdade não é um erro, mas a atuação do acaso (foi por acaso) limitada a 5%. De posse dos resultados chegaram a conclusão que não havia diferença entre as populações, e portanto não poderiam considerar o com-com como uma espécie isolada, ou seja voltaria a ser como Gonzaga e Pacheco concluíram em 1990.

E o passarinho? Sabe dessa confusão toda?

Seu nível de ameaça é de "Em perigo", segundo a IUCN. Consta do Red Data Book (IUCN), do Livro Vermelho ICMBio, e da Lista de fauna ameaçada de extinção no RJ, ou seja existe unanimidade com relação a situação crítica dessa ave.
O avanço da ocupação humana nas áreas onde ele ocorre constitui a maior preocupação dos especialistas, pois apesar de existir uma faixa de vegetação separando as rodovias das praias, ocorrem invasões coordenadas com o intuito de estabelecer pequenos núcleos habitacionais como base para a especulação desenfreada. A esperança está em algumas áreas preservadas.



Embora as informações não indiquem a ocorrência do Com-com em Búzios eu continuo procurando ele por lá. As fotos do macho e da fêmea são de autoria do Nigel Voaden e estão disponíveis no Flickr. Não foram feitas em Búzios.




Não fotografei o Com-com, mas participei da foto de Athene cunicularia!


Coruja-buraqueira na restinga em Tucuns, 

Para saber mais sobre o assunto.

1) Two new subspecies of Formicivora serrana. LP Gonzaga e JF Pacheco. Bulletin of the British Ornithologists' Club, volume 110, páginas 187-193, 1990.

2) NJ Collar, LP Gonzaga, N Krabbe, A Madrono Nieto, LG Naranjo, TA Parker, e DC Wege. Threatened birds of the Americas: the ICBP/IUCN Red Data Book. International Council for Bird Preservation, Cambridge, 1150 pp. 1992.

3) Taxonomy and geographic variation of Formicivora serrana (Hellmayr, 1929) and Formicivora littoralis Gonzaga and Pacheco, 1990 (Aves: Passeriformes: Thamnophilidae).DH Firme e MA Raposo.  Zootaxa, v. 2742, p. 1–33, 2011

3) IUCN.  www.iucnredlist.org/details/22724412/0






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