TIPOS DE NINHOS DE BEIJA-FLORES
Segundo Augusto Ruschi
Os ninhos dos beija-flores são verdadeiras obras de arte, que une engenhosidade e técnica apurada. Eles costumam ter o formato de uma pequena taça e são construídos com materiais macios como fibras vegetais, paina, musgos, líquenes, teias de aranha, e são presos a galhos, rochas, ou em folhas ou forquilhas.
O segredo da sua elasticidade e
resistência está na teia de aranha usada para amarrar os materiais e fixar o
ninho a galhos ou folhas. Essa elasticidade permite que o ninho se expanda
conforme os filhotes aumentam de tamanho. Para a camuflagem, as fêmeas
frequentemente decoram o exterior com líquens, tornando-os quase invisíveis aos
predadores.
A colheita de teia de aranha para a confecção do ninho pode se tornar uma operação arriscada. Ruschi (1985) documentou uma fêmea do beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitus) presa na teia de uma aranha do gênero Nephila.
A postura consta invariavelmente de 2 ovos, não sendo comum as posturas com 1 ou 3 ovos, que são brancos, ovais e sem manchas. Ocasionalmente os ovos podem ficar manchados com pigmentos dos materiais usados na confecção dos ninhos, como o líquen Spiloma roseum (SICK, 1997).
A
base estrutural costuma ser a paina (sumaúma, paineira, bromélias) e fibras
vegetais finas. A cola que une tudo é a teia de aranha, que confere
elasticidade.
A construção do ninho e a criação dos
filhotes competem às fêmeas, pois o macho é polígino (acasala com várias fêmeas
durante o mesmo período reprodutivo) e não contribui na construção, incubação
ou alimentação dos filhotes.
Carvalho (1958) descreve um comportamento utilizado por fêmeas da espécie Chlorestes notatus, para não chamar a atenção de predadores sobre o ninho quando ela se afasta. Consiste em se deixar cair com cauda e asas espalhadas, balançando como se fosse uma folha seca caindo. Quando está próxima ao solo arremete em voo velozmente. Sick (1997) cita o mesmo comportamento em fêmeas de Heliothrix aurita.
Augusto Ruschi (1915-1986), o "Patrono da
Ecologia no Brasil", é reconhecido como um dos maiores especialistas em
beija-flores e classificou a arquitetura de seus ninhos com base no formato e na
forma de fixação ao substrato, criando em 1973 uma classificação para os ninhos
dos beija-flores de acordo com a sua construção, materiais utilizados e a
localização na vegetação.
Independentemente do tipo de ninho, a
fêmea segue uma técnica de engenharia rigorosa:
A fundação ou base do ninho é feita com
teias de aranha para criar a aderência inicial ao galho ou folha.
A estrutura é feita com camadas de paina
vegetal (fibras) que funcionam como isolante térmico.
O revestimento Interno é a base de penas
minúsculas (penugens) ou fibras de musgos mais macios para proteção dos ovos e
filhotes.
A finalização é feita com uma camuflagem
externa que consiste na fixação de líquens ou pedaços de casca de árvore com
teia de aranha para mimetizar o ninho com o ambiente, o que é essencial para
evitar a predação por outras aves, como tucanos e primatas.
A elasticidade do ninho citada por Ruschi
(1973) permite que o volume interno aumente em até 100% conforme os dois
filhotes crescem, sem que as paredes se rompam.
Ninho tipo I
O ninho do tipo I tem
forma alongada com um prolongamento em forma de cauda a partir da base da
câmara de incubação. É confeccionado com fibras deixando perceptível o interior
da câmara através da rede formada pelas fibras das folhas de palmeiras. Usa
teia de aranhas para fixar o material (fragmentos de folhas e gravetos) que
forma a cauda do ninho. Glaucis hirsutus é um exemplo.
Ninho tipo I - Ruschi
Ninho tipo II
O ninho do tipo II é semelhante ao tipo I, com prolongamento que parte do corpo da câmara de incubação, sendo, porém construído de material macilento e compacto e não de fibras, tendo musgos, liquens, fragmentos de folhas e ramos fixados à parede externa com teia de aranhas. Phaethornis squalidus constrói ninho deste tipo.
Ninho tipo II - Ruschi
Observação
Os ninhos dos tipos I e II ficam pendurados na extremidade das folhas de samambaias, palmeiras e helicônias.
Ninho tipo III
O
ninho do tipo III tem formato de tigela sem prolongamentos em forma de cauda,
confeccionado de material macilento, todo fixado externamente com teias de
aranhas. As paredes externas podem ser nuas, parcialmente ou totalmente
cobertas de liquens. Ao contrário dos outros dois tipos, este tipo de ninho é
construído sobre ramos horizontais, nas forquilhas ou na junção com ramos
verticais. Neste tipo está incluída a maioria dos ninhos de beija-flores. O
ninho do tipo III tem quatro subtipos.
Ninho tipo III - Ruschi
1º subtipo
Neste subtipo estão
incluídos os ninhos confeccionados exclusivamente com material macilento, como
paina de Thypa, Bombax, Chorisia, Bromeliaceae, Gramineae e Compostas. Esse
material é fixado com teias de aranha nas paredes externas do ninho. Geralmente
são construídos no centro do limbo foliar de plantas com folhas consistentes e
estendidas horizontalmente. Não há liquens fixados nas paredes externas. O ninho de Florisuga fusca é deste tipo.
2º subtipo
Neste subtipo estão
incluídos os ninhos confeccionados de madeira em decomposição e elaborado com a
saliva das fêmeas, o que dá a esses ninhos um aspecto celulósico, sem ornamento
externo nas paredes a não ser teia de aranha para melhor fixação e
consistência. Não há liquens fixados nas paredes externas. Como exemplo temos o ninho de Topaza pella.
3º subtipo
Neste subtipo o ninho é todo confeccionado de musgo, sem qualquer outro material, sendo fixado com teia de aranhas e a mucosidade que a fêmea produz. Comum nas espécies das regiões andinas, como por exemplo Coeligena torquata.
4º subtipo
Neste subtipo os ninhos são confeccionados exclusivamente de material macilento, como lã de animais, como as ovelhas. Na parte interna da câmara oológica usam plumas de aves. O material é fixado nas paredes externas do ninho com teia de aranhas e a mucosidade fabricada pelas fêmeas. Podem ter formato alongado e a câmara oológica é bastante profunda. São fixados às paredes das rochas no interior de cavernas ou reentrâncias rochosas. O ninho de Oreotrochilus estella, dos Andes, é do 4o. subtipo.
Ninho tipo IV
BUSTOS, A; et al. Beija-flores: os cúpidos da Mata Atlântica.
Interações de seis espécies de beija-flores em Santa Tereza ES: guia de campo.
Curitiba: INMA, 2020. 28p.
CARVALHO, C. T. Notas biológicas sobre Chlorestes notatus Reich. (Aves. Trochilidae). Boletim do Museus Paraense Emílio Goeldi. Zoologia, n.18, p.1-17, 1958.
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SICK, H. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1997. 912p. Beija-flores: Família Trochilidae,
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