domingo, 1 de maio de 2016

COCCIDIOSES EM PASSERIFORMES


COCCIDIOSES EM PASSERIFORMES

Môsar Lemos

A infecção por coccídeos em aves Passeriformes pode ser assintomática ou estar associada com uma síndrome diarréica, às vezes sanguinolenta e emagrecimento progressivo. Embora já se tenha encontrado Eimeria nas fezes de passeriformes, o principal causador da coccidiose nestas aves é Isospora. Em condições naturais muitas vezes são observados casos de coccidiose sem sintomas, apenas perceptíveis pelo exame das fezes, entretanto existem situações em que a coccidiose evolui como doença grave e epizoótica. As aves doentes se mostram tristes, com as penas arrepiadas, plumagem seca e ficam alheias a aproximação do homem, sendo fácil capturá-las com ou puçás ou mesmo com as mãos dentro dos recintos. Na maioria das vezes não conseguem voar direito, estão bastante leves e com a quilha do esterno proeminente (peito seco, facão, peito-de-faca). As aves de gaiolas não se alimentam, embora passem horas no comedouro descascando as sementes, sem ingeri-las. Devido às extensas lesões no intestino, o pouco alimento que ingerem não é absorvido e a ave definha gradualmente. A doença é mais freqüente nas aves jovens, e já foi observada prevalência de 20% em passeriformes selvagens na Alemanha. Em pássaros de gaiolas e viveiros a coccidiose pode ocorrer de forma epizoótica, com mortalidade superior a 50%. Embora haja especificidade entre os parasitas e os hospedeiros Isospora lacazii (lacazei) já foi encontrada em mais de 50 espécies de aves. A profilaxia está baseada na limpeza diária rigorosa dos viveiros e gaiolas, com remoção das fezes, limpeza e desinfecção de comedouros e bebedouros. Os oocistos não são atingidos por desinfetantes ou drogas coccidiocidas, assim é importante um rodízio dos fomites, e se não for possível o uso de vassoura de fogo, os equipamentos devem ser deixados ao sol de um dia para o outro, após a limpeza e a desinfecção.  É importante também observar que os comedouros e bebedouros não fiquem posicionados embaixo dos poleiros, para evitar que as fezes sejam depositadas dentro deles. O diagnóstico da coccidiose é feito através de exame parasitológico das fezes. Como a excreção é feita de forma intermitente, deve-se coletar as fezes durante três dias consecutivos mantendo o material sob refrigeração, sem o uso de conservantes, de forma a possibilitar a obtenção da esporulação no laboratório, pois alguns conservantes danificam os oocistos. Como os sintomas da doença aparecem antes da fase sexuada do ciclo vital dos parasitas, e conseqüentemente antes da produção dos oocistos, muitas vezes o exame parasitológico é negativo. Assim, o exame deve ser repetido mais duas ou três vezes com intervalo de três dias entre um exame e outro. As técnicas de flutuação e sedimentação são adequadas para o exame, devendo ser utilizados os métodos de Willis-Mollay e Ritchie modificado. Quando se faz necropsia de pássaro com suspeita de coccidiose deve-se utilizar raspado da mucosa intestinal para o exame microscópico. O exame histopatológico de fragmentos de intestino também é de grande auxílio no diagnóstico. Diversas espécies de Isospora já foram descrias em Passeriformes no Brasil, muitas delas sem associação com a doença (Quadro 1). A coccidiose dos pássaros também pode ser chamada de isosporose.

Isospora serini um coccídeo com um ciclo diferente

            O termo atoxoplasmose (não confundir com toxoplasmose!) tem sido utilizado para uma doença das aves, especialmente entre os Passeriformes, que na realidade é determinada por um coccídeo: Isospora (Atoxoplasma) serini, que apresenta um ciclo diferente daquele observado em outros coccídeos do mesmo gênero e do gênero Eimeria. Isospora serini faz a parte sexuada do seu ciclo vital na mucosa intestinal do hospedeiro, enquanto a fase assexuada ocorre em diversos órgãos, fato que não é observado em outras isosporas.
Em seguida a ingestão dos oocistos esporulados e liberação dos esporocistos, os esporozoítos de Isospora e Atoxoplasma invadem as células epiteliais do intestino. Isospora passa por merogonia no epitélio intestinal, enquanto Atoxoplasma penetra na corrente sangüínea através dos vasos do intestino delgado. Os esporozoítos subseqüentemente invadem os leucócitos e sofrem divisão assexuada nos macrófagos, linfócitos e monócitos teciduais e circulantes, assim como nas células epiteliais intestinais. Os merozoitos resultantes formam microgametas e macrogametas. A gametogonia, o estágio sexual do ciclo vital dos coccídeos, ocorre nas células epiteliais intestinais. Após a formação o zigoto sofre alterações formando os oocistos. Estes oocistos não esporulados são liberados com as fezes cerca de 9 a 10 dias após a infecção inicial e continuam a ser liberados durante meses mesmo depois dos sinais clínicos nas aves sobreviventes terem desaparecido. Os oocistos esporulam no ambiente e então se tornam infectantes. Os oocistos podem ser identificados por técnicas de flutuação (Willis-Mollay, por exemplo), mas é difícil distinguir oocistos de Isospora e Atoxoplasma, já que ambos os organismos possuem dois esporocistos com quatro esporozoítos cada um.
            A atoxoplasmose é uma doença de canários jovens na faixa etária de dois a nove meses de idade. Os sintomas clínicos incluem asas arrepiadas, ave “embolada”, debilidade, diarréia e morte, e ocasionalmente podem ocorrer manifestações neurológicas. O fígado fica aumentado e pode ser visto como um ponto azul no lado direito do abdome caudal ao esterno. Macroscopicamente é observada hepatomegalia, às vezes com pontos de necrose na fase aguda da doença. Pode ser vista uma esplenomegalia com um baço de coloração vermelho escuro e um duodeno edematoso bastante vascularizado.
            Nas impressões em lâmina de vidro (imprintings) de fígado, baço e pulmões, os parasitas são vistos no citoplasma dos monócitos. O núcleo da célula hospedeira fica com a forma de um crescente. Os coccídeos raramente são vistos nas fezes ou conteúdo intestinal, porque após a fase aguda somente uns poucos oocistos são excretados (100 a 200 por hora).
A diferenciação “post-mortem” entre os dois organismos (Atoxoplasma serini versus Isospora canaria) é baseada na ampla distribuição de A. serini nos tecidos da ave (fígado, baço, pulmão e sangue periférico), assim como pela comparação da localização dos cistos em relação ao núcleo dos enterócitos, pois Atoxoplasma serini é mais externo e confere ao núcleo a forma de um crescente.
            A atoxoplasmose é considerada como resistente à terapia. Na Europa o tratamento de escolha é a sulfacloropiridazina (Esb3, Vetisulid) na razão de 150mg/ litro na água de bebida durante cinco dias por semana. Este tratamento deve ser repetido toda semana desde o momento em que o diagnóstico é confirmado até depois da muda. Este procedimento tem se mostrado seguro e efetivo, mas afeta somente a produção de oocistos e não influencia os estágios intracelulares. Ele interrompe o ciclo infeccioso. Outros produtos também podem ser efetivos na interrupção do ciclo. Outras medidas incluem alimentação com uma parte de “farinhada” com ovos e uma parte de mistura de sementes até após a muda. Evitar superlotação dos aviários, após trocar e limpar os pisos das gaiolas e dos viveiros manter uma boa higiene é uma medida que sozinha pode prevenir surtos clínicos em canários infectados. A infecção também é comum em outros fringilídeos europeus criados em cativeiro.


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