terça-feira, 3 de maio de 2016

OCORRÊNCIA DE CORUJA PRETA, Strix huhula (STRIGIDAE, AVES), EM ÁREA URBANA DE NITERÓI, ESTADO DO RIO DE JANEIRO.



Andréa de Andrade Rangel de Freitas e Môsar Lemos

              Strix huhula é uma coruja endêmica da América do Sul, sendo descritas duas subespécies: S. huhula huhula na porção oeste-setentrional da América do Sul cisandina, desde o extremo norte (do leste da Colômbia às Guianas) até o Brasil amazônico e este-setentrional adjacente (norte do Maranhão e Piauí); e S. huhula albomarginata, no Brasil este-meridional, do Rio de Janeiro a Santa Catarina, e  sudeste de Minas Gerais (Pinto 1978), esta última com distribuição restrita à região de Floresta Atlântica no sudeste do Brasil, leste do Paraguai e nordeste da Argentina (Holt et al. 1999 apud Gonzaga e Castiglioni 2004). Strixhuhula é uma coruja com cerca de 31 a 36 cm com um disco facial negro com linhas brancas concêntricas. Utiliza o extrato superior da floresta tropical alta e florestas úmidas subtropicais (Duncan 2003).

 Strix huhula
            A espécie foi descrita por Daudin em 1800 (Pinto 1978) e segundo Alveset al (2000) é uma espécie pouco abundante e os dados existentes são insuficientes para determinar seu status de conservação no Estado do Rio de Janeiro. A maioria das corujas grandes é naturalmente rara, ocorrendo em baixa densidade e apresentando áreas de vida relativamente extensas (Thiollay 1989), e nidificam principalmente em árvores ocas (Sick 1997) que nem sempre estão disponíveis e pelas quais competem com uma série de outros animais (Antunes et al 2006). Além disso, as atividades predominantemente noturnas fazem com que, quando comparadas a outras aves, as corujas maiores tenham suas áreas de ocorrência menos conhecidas (Antunes et al 2006).
Pacheco et al (1992) registraram a presença da espécie na área do parque Estadual do Desengano, município de Santa Maria Madalena. Tal registro baseou-se em uma pena encontrada e posteriormente identificada como pertencente à espécie. Gonzaga e Castiglioni (2004) relataram a presença da espécie no maciço da Tijuca, cidade do Rio de Janeiro através do registro de vocalização de um indívíduo. Segundo os autores, este foi o primeiro registro documentado de S. huhula no município do Rio de Janeiro, afastando dúvidas a cerca de sua existência na região. Os autores também relataram a identificação de dois exemplares um macho em 2002 e um indivíduo de sexo indeterminado em 2000 mortos, aparentemente vítimas de atropelamento, no trecho que atravessa a área da reserva Biológica União, em Casimiro de Abreu. A espécie não consta da lista de aves de rapina observadas por Lemos (2000) em Niterói.
            No dia quatro de agosto de 2007 uma ave grande de silhueta escura foi avistada pela primeira vez às 22h 30 min investindo sobre morcegos que se alimentavam em uma garrafa contendo néctar pendurada no telhado da casa a 2,5 m de altura do solo. Algum tempo depois, em uma segunda investida a ave atravessou a garagem, capturando um morcego, possibilitando a visualização de uma coruja preta. Às 23h 50 min a ave empoleirou a aproximadamente seis metros de altura em um galho de flamboyant vermelho (Delonix regia) no quintal da casa, com a atenção voltada para a mesma garrafa onde os morcegos se concentravam. Nesta ocasião, permaneceu pousada cerca de dez minutos o que permitiu a identificação e o registro fotográfico com máquina digital.

 Bairro de São Francisco/Charitas
            Strix huhula tem sido relatada principalmente em localidades de baixa altitude, entre o nível do mar e 500 m, raramente alcançando 1400 m. Habita áreas de floresta úmida com árvores altas (incluindo matas de araucária), mas também pode ser ocasionalmente encontrada em ambientes antrópicos como bananais e cafezais (Holt et al 1999).  A altitude e o horário de atividade da ave observada coincidem com as informações de Gonzaga e Castiglioni (2004) no maciço da Tijuca. No entanto, Sick (1997) descreve uma maior atividade caçadora das espécies noturnas durante o crepúsculo e a noite, até aproximadamente 21 horas, sugerindo uma possível modificação deste horário nas noites de lua cheia, por melhorar a visibilidade e agindo na produção de sombras, o que também coincide com a noite do presente relato.
            A alimentação dos estrigídeos brasileiros é em boa parte constituída por insetos. Entretanto estas aves também capturam roedores, marsupiais, morcegos, lagartos e rãs (Sick 1997). Segundo Work e Hale (1996) os invertebrados constituem a principal fonte de alimentação das corujas, mesmo as de grande porte, o que pode ser evidenciado pela análise do conteúdo estomacal desses animais. Estes autores sugerem que as corujas assimilam os insetos de uma forma mais completa quando comparados aos ossos de mamíferos e aves, desse modo diminuindo a probabilidade de reconhecimento dos invertebrados nos peletes regurgitados. As corujas florestais preferem áreas com sub-bosque aberto para caçar, utilizando bordas de mata (Sick 1997). As colisões com veículos são freqüentes e relatadas como uma importante causa de mortalidade de corujas (Work e Hale 1996, Wendell et al 2002) devido às características de baixo vôo enquanto procuram suas presas (Antunes 2006). No entanto, este não parece ser um risco no local de nossa observação, que fica próximo a Reserva Biológica e Florestal do Parque da Cidade localizado no morro da Viração, e por ser um bairro residencial, com poucos habitantes e sem área significativa de comércio o fluxo de veículos não é intenso, sobretudo durante a noite.
            Aliado aos fatores naturais, ao longo de seu processo de ocupação o Estado do Rio de Janeiro passou por diversos ciclos econômicos de extração e de produção, tendo atualmente sua área de cobertura florestal reduzida a menos de 20% em relação àquela existente originalmente. A alta taxa de desmatamento e degradação tem levado a perda de inúmeras espécies pela retração da área de ocorrência e isolamento de hábitats originais (Tanizaki e Moulton 2000). O município de Niterói apresenta 21km² ou 16% de seu território revestido por matas densas, que ocupam as áreas mais acidentadas. As capoeiras cobrem 19km² do território. No total 32% do município está coberto por matas densas e capoeiras. A cobertura vegetal é complementada por eucaliptais, bananais, restingas, brejos e manguezais que ocorrem na praia do Imbuhy e nas lagunas de Itaipu e Piratininga (Zaidman et al 1985).
Este é o primeiro registro fotográfico da espécie no Estado do Rio de Janeiro, e contribui para mostrar que mesmo os pequenos fragmentos da Floresta Atlântica são importantes na manutenção da biodiversidade devendo ser preservados nos projetos de urbanização.

Referências bibliográficas
Alves, M. A. S., J. F. Pacheco, L. A. P. Gonzaga, R. B. Cavalcanti, M. A. Raposo, C. Yamashita, N. C. Maciel e M. Castanheira (2000). Aves, p. 113-124. Em: Bergallo, H. G., C. F. D. Rocha, M. A. S. Alves e M. Van Sluys. A fauna ameaçada de extinção do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora UERJ. 
Antunes, A. Z., M. R. Eston, A. S. R. Santos, G. V. Menezes, A. M. R. Santos (2006) Presença de Coruja-Listrada Strix hylophila Termminick, 1825 (Aves, Strigidae) no Parque Estadual Carlos Botelho, São Miguel Arcanjo, Estado de São Paulo (Nota Científica). Rev. Inst. Flor. 18: 167-171.

Duncan, J. R. (2003). Owls of the world: their lives, behavior and survival. New York. Firefly Books. p. 254-255. 

Gonzaga, L. P. e G. D. A. Castiglioni (2004) Registros recentes de Strix huhula no Estado do Rio de Janeiro (Strigiformes: Strigidae). Ararajuba. 12 (2): 141-142.
Holt, D. W., R. Berkley, C. Depper, P. L. Enríquez Rocha, J. L. Petesen, J. L. Rangel Salazar, K. P. Segors e K. L. Wood (1999) Black-banded-Owl. In: J. del Hoyo, A. Elliott e J. Sargatal (orgs.) Handbook of the birds of the world, v. 5. Barn-Owls to Hummingbirds. Barcelona: Lynx Edicions. p. 205.

Lemos, M. (2001) Ocorrência e status de algumas aves de rapina no município de Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Boletim ABFPAR. 4(2): 6-11.

Pacheco, J. F., Carvalho, C. E. S. e Fonseca, P. S. M. (1992) Notas sobre a ocorrência e distribuição de algumas espécies no Parque Estadual do Desengano, norte do estado do Rio de Janeiro. In: Resumos II Congresso Brasileiro de Ornitologia, Campo Grande:
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, p. 11.

Pinto, O. M. O (1978). Novo catálogo das aves do Brasil. Primeira parte. Aves não Passeriformes e Passeriformes não Oscines, com exclusão da família Tyrannidae. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais. p.168.

Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p.403.

Tanizaki, K e T. P. Moulton (2000). A fragmentação da Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro e a perda da biodiversidade, p. 23-36.  Em: Bergallo, H. G., C.F.D. Rocha, M.A.S. Alves e M. Van Sluys. (Eds). A fauna ameaçada de extinção do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora UERJ.

Thiollay, J. M. (1989). Área Requirements for the Conservation of Rain Forest Raptors and Game Birds in French Guiana. Conservation BiologyOxford. 3 (1): 128-137.
Wendell, M., J Sleeman, G. Kratz (2002). Retrospective Study of Morbidity and Mortality of Raptors Admitted to Colorado State University Veterinary Teaching Hospital During 1995 to 1998. Journal of Wildlife Diseases. 38 (1): 101-106.

Work, T. M e J. Hale, (1996). Causes of Owl Mortality in Hawaii, 1992 to 1994.Journal of Wildlife Disease.  32 (2): 266-273.

Zaidman, D; Silva, E.M.A; Mocarzel, H.M.V; Alcoforado, L.H.C; Braga, M.J.S; Cury, M; Souza, N.P.P (1985). Niterói. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense.

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